segunda-feira, 19 de junho de 2017

Favos de noite




No meu sonho você
me abraça forte
me ajuda a dormir
e diz que vai me ajudar
a resolver todos os meus problemas

Sem cheiro de alcool
Sem lágrimas culpadas
Só o doce som do seu canto
Esquentando meus ouvidos

na realidade, por pensar no sonho
quase sorrio
e assim é mais fácil viver
Mas é quase
porque é óbvio que o seu eu que eu amo
provavelmente nunca será visto

Morfologia das paredes


As pessoas usam seus rostos para esconder segredos
Modulam expressões para que seus pensamentos não vazem pela pele
ou seus sentimentos pelos olhos
E isso o tempo todo
Às vezes até entre amantes

Entretanto
seu rosto é diferente
Há algo intenso demais

Mistério em demasia
Tão feroz, tão sutil
Quase afeto, quase agonia
E quem olhou não viu

Você
Em si

Diz tanto sobre quem é
E no entanto nada fala
Se dilui no ambiente
Como chuva numa sala

Há tão pouco sobre quem está
como está o que está quando é

Sem perceber, me dá

um pequeno pedaço do mundo
Nunca visto
Sempre sentido
na eternidade de ser você

Sua face É o segredo

Que nunca vou desvendar
E nenhuma foto captura
O estranhismo desse olhar

Sua dor, seu amor
a mistura vital intrínseca
e nunca contada

Jamais será narrada
a mim

Logo esse eu
que nota

Em face sempre a fase

Você, que apenas com a imagem de seu rosto
desafia todas as minhas noções de tempo

Mas nunca de espaço.

Promido

[Promessa-pedido, ou A Queda da Gota d'Água]

Ande, venha, chegue mais perto
Se eu morder, me abrace.

Quero correr pelo mato;
Quero sentar numa árvore;
Quero comprar o mercado;
Quero comer sem pensar;
Quero sorrir sem dores;
Quero viver mil amores;
Quero esquecer pra depois lembrar;
Quero estar em paz mesmo aqui;
Quero o mundo e nada quero,
Mas não tão só.

Venha, chegue mais perto
Me toque por dentro do coração
E, se ainda assim eu morder, me ame.

Quero até sentir a infelicidade
Mas com você, e não tão só

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Átimo

O mundo é muito claro.

Fecho os olhos
E me escondo sob o tecido grosso.

Mas preciso respirar
E essa necessidade me mata
Me põe à prova, testa o perigo
Entre eles, encontrar você

Pelo som, pela luz, pelo toque,
pela dor
Sempre pela dor.



me corta por dentro
Fragmenta inteira

perco pedaços
Me arrastando na Terra

e os átimos restantes
Parecem conter alvéolos

segunda-feira, 5 de junho de 2017

CancelaR

Se eu pudesse cancelar o que houve
Desfazer os nós em mim
E estar novinha e inteira
Como uma fita fresca de cetim
Como limpar um pincel em água
E descartar o líquido carmim
Se eu pudesse simplesmente desistir
Do passado triste sem fim
Jogá-lo fora e depois sorrir
Porque foi amassado, ficou pequeno e foi embora como um pássaro inteligente
Se eu pudesse ser omissa comigo
Ignorar toda essa gente
Que eu fui, que ainda sou
E me tornar nova, ser outra

Eu não seria eu
Mas poderia ser mais feliz

E tudo seria mais fácil.

Colisão

Tenho aula amanhã cedo
Mas nem me importo se faltar
Da aula me recupero cedo
Não digo o mesmo do seu olhar

Faltar na aula não é fatal
Mas fatal é faltar você
Tão gigante em seu amor
Que preciso te aprender

Suas formas, o seu riso
O seu jeito de pensar
Tudo quero e mais um pouco
É muito intenso te amar

Isso os livros não ensinam
Nem a internet pode mostrar
Isso é raro e genuíno
Fenômeno pra se estudar

Então fica perto e me deixa
Por sentidos me aproximar
Entender os mecanismos
Que me distraem sem parar

O tempo passou, meu caro
Mas tantos anos explodem em mim!
Sinto que estou parada, observando
Mil correndo uma corrida sem fim

O ideal é você aqui
Ir de fosso a jardim

O real é que tudo isso ganha graça
Quando vejo você me olhar assim