quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Anomia ou A Página Sem Título

Caminha entre as árvores mas pisa em suas flores
No entanto, hoje há estrelas no céu
Corro para encontra-las, mas se parecem contigo
Me prende na Terra com teu amor inimigo

Me perdi em tuas pupilas, esqueci os meus temores
Viajo nas lembranças e colho teus amores

Espero por ti há não sei quantas luas
Te vejo, te sinto, te perco
É como o vento, não posso alcançar por inteiro
Nem mil abraços me aproximam do teu cheiro

Capturo algumas de tuas partes belas
Pedaços dum sentimento profundo e triste
Três dimensões escondidas, presas em duas
Procuro minhas lágrimas, só encontro as tuas

E os versos recomeçam 
Como as batidas do coração
Pulsa em suas cores,
estarei aqui 
Você não 

domingo, 20 de novembro de 2016

Dós

Eu desenhei numa folha e me escondi no 2D;

Um mundo mágico, superficial e profundo
[a superfície precedente da profundeza]

Nele posso pintar o amor que não havia
E transformar a dor em jóia fria

Faço pétalas em torno do machucado
E transformo em margaridas os hematomas.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Pólento

Algo acima pesa e as bases tremem
Esmaga e estilhaça e quebra
Já não resta um, mas todas
As pequenas partes do ser
São pó

Arrastado pelo vento no mundo

E ninguém sabe de quem é
E todos acham que é de alguém

Fato frio

Eu pus minha camisa preferida
para ir visitar a pessoa favorita
         Mas ela não está no mundo.

Só o tecido bege parece o mesmo.

Infeliz, cidade em mim

O amanhecer incendeia lentamente
as nuvens com suas cores
O céu azul cheio de algodão
é um dos meus amores

E aqui embaixo, no chão
postes brilham como estrelas amarelas
na cidade colorida que aos poucos desperta
acalmando seus donzelos e donzelas

Cá estou eu, também
Observando o mundo por uma névoa nítida
Tão vazia por dentro quanto horrível por fora
Triste pelas mazelas de minha vida

O azul das paredes do supermercado
quase me distrai do futuro desagradável
Tão próximo e assustador
E me sinto uma esponja impermeável

No meu coração, só há pedra e areia
O tempo escorre apenas para logo anoitecer
E outro dia ruim chegar
nesse inevitável envelhecer

Há tão pouco tempo de vida
quando não se escolhe o que fazer!
Maldito seja o sistema
e breve o seu prevalecer

Entretanto, entre tanto
nada novo é criado
E me sinto prestes a explodir
dentro do meu próprio pecado

Me desloco inerte
a saudosista buscando rimas
Não há vento
Sofro em silêncio




[A Estrela se descobre
Cai sobre a multidão
Eu seco as lágrimas que lavam os olhos,
escondo o resto no coração]

Arca de ista

Moço deitado na grama,
você tem o brilho nos olhos de quem faz valer a espera
E é ambíguo, eu sei
E amo
porque são duas verdades
e somos nós aqui

Moço deitado na grama,
você tem que estar aqui
Pois foi por pensar em você que peguei minhas chaves em vez do bilhete único
E assim levantei o metal em vão
Distante visto da mente enevoada pelos seus doces nadas

Moço deitado na grama,
teus dois olhos refletem o brilho da Estrela
apesar do ângulo de tua bela cabeça inerte
Sorri com ternura olhando o céu
(ouve Ron Pope)
E fecha os olhos, a luz cega quando vem de fora
de você

Moço deitado na grama,
tua boca benfeita tem o calor
E tuas retinas profundas são um espelho mais justo
que os pseudo presentes do mundo
E atrás estão os sonhos e piadas
E abaixo é o calor
que quero beijar

Moço deitado na grama,
desejo ser acordada por ti todas as manhãs
E tomar teu café sempre que der
Porque o mundo me chama mais cedo
para buscar e fazer o que é preciso

Moço deitado na grama,
quase ouço teu coração
E parte de mim odeia uma parte de mim
por sempre escrever poemas que podem dar errado