sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

como crianças aprendem que dói amar

ele fecha o portão de ferro
ela suspira o ar de fim
ele caminha para longe
ela se deita no sofá carmim

um novo cadeado, pensa
novos portões, murada melhor
quatro chaves de reserva
cacos de um vidro maior

proteção, é preciso proteger
dentro da casa os corações
que ninguém conseguirá ver
proteção, é preciso esconder
melhor as chaves no escuro
do que uma vida de sofrer

ele liga para as crianças
ela penteia seus cabelos
ele marca uma viagem
ela explica sem rodeios

não digam tudo, manda
agora usam discrição
ele é um novo estranho
está fora da construção

armas metálicas bem forjadas
no fogo brando do rancor
a guerra é fria e latente
ódio feito do antigo amor

não é contra país vizinho
nem contra rebeldes da região
não é contra um povo distante
é contra sangue da sua mão

as crianças estão deitadas
vendo seu castelo ruir
continue construindo, disse Deus
um dia de novo vai poder rir

elas tiram os sapatos
jogam o pente no chão
caçam restos de cimento
e cauterizam o coração

tinta não vive

fizeram com que as mulheres
exaltassem a beleza do olhar distraído
para assim extrair o doce e deixar a casca suja de tintas nobres

fizeram com que os homens
ficassem em paz
e agora quando os observamos em mistério
fazerem nada, em paz
achamos a genuína beleza

que eles tiram das mulheres
para manter sua paz ingrata

assim se tornaram sujos de injustiça
assim como estamos sujas  [do que chamam] de mach agem

mente

não daria certo
eu sussuro dentro
não daria certo
e por isso não pude fazer nada

eu teria me encolhido
eu teria explodido
precisei gritar todas aquelas coisas horríveis
e por isso não pude fazer nada

precisei gritar verdades num tom desesperado
e mentiroso ao esconder que te amava
e que me magoei demais por você
e por isso não pude fazer nada

eu arranhei a todos com minhas garras
urrei como o leão que perdeu a coragem
covarde chorei e bati mais que meu coração
e por isso que não pude fazer nada

mas a verdade corrói quando lutamos
e ela arranha minha garganta adentro
mas a verdade ninguém mata nem some
e ela se conta nos corações culpados como o tique taque de um relógio assassino

mas sigo forte no argumento tolo
de que fiz o que foi preciso
mas sigo forte na muralha quebrada
de que era tudo que podia ter feito
e assim me conto que não pude fazer nada

o que a verdade corrói a mentira afaga
conta mil ficções beijadas pelo medo
me abraça à noite, no quarto escuro
da consciência onde a verdade latente pulsa mais que meu pulso
e grita sussurando aos poucos como aquele velho tique taque
porque eu pude fazer diferente
e

não

fiz

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

p ai n

sou seu travesseiro na noite crua
as mentiras doces que você cria
sou sua espera decadente
a verdade tola descontente

sou quem você abandona sem dizer
sou o vento frio no amanhecer
se você invade sonhos meus
não mereço o seu adeus?

sou a pergunta sem resposta
o famoso jogo sem aposta
sou a tristeza de toda rima
o encontro seco sem clima
 [quando todos vão pra casa  sem ter o que dizer

sou a filha do meio
a média morna
a filha pródiga
que nunca torna

sou a preocupação da sua esposa
o tremor por qualquer coisa
a criança na sua camisa
o paradoxo na divisa
dormindo e chorando
ao que acorda reclamando

sou seu motivo pra beber
sou sua volta tardia
sou presa a você
até deixar de te perder

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

23 horas

depois de todos esses anos
ainda tenho medo da noite
e todo dia, todo dia, todo dia
é como ver você partir

o sono nem veio e já foi embora
o mundo manda barulhos lá fora
o coração bate rápido e com demora
meus nervos são os gatilhos da pistola

depois de todos esses anos
ainda tenho medo de dormir
e toda vez, toda vez, toda vez
a sensação está aqui

não vou tomar outro banho
o frescor já não é um ganho
tudo é disforme e sem tamanho
o tempo cresce e não tenho um plano

depois de todos esses anos
ainda durmo e acordo
ainda sinto e discordo
ainda aceno e decoro

como fingir que estou vivendo
depois de todos
esses anos

             de tudo

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

célebra

existe uma caixa
no fundo escondida
um antro de compulsões
da velha fera ferida

há folhas, fotos, desenhos
há letras, rostos, rabiscos
e emoções impressas
como a culpa que a corrói
há relatos, poemas, frases
há cor, memória, faltas
e pensamentos concretos
como a doença que a destrói

foram mentiras, foram gritos
foram perdas, foram agitos
tudo passou mas tudo fica
guardado na caixa
foram anos, foram horas
foram vidas, foram memórias
tudo era mas nada é
guardado na caixa

o coração bate e sufoca
balança a caixa por fora
elementos bagunçados voam
a ordem do mundo distoa
a caixa louca como avião
perdido no céu amarelo
não há bússola nem âncora
não há coroa nem elo

então a fera fere
a caixa sangra o coração
não sente mais quem é de fora
expulsa todos da pensão

depois volta arrependida
clamando por atenção
então chora atendida
vendo o ciclo sem razão

não entende o começo
não prevê o fim
nasceu no meio
e fica assim

ressaca

Toco seu rosto
o círculo de seus olhos
ainda tenho medo
do anoitecer

sua pele é morna
o circulo de seu nariz
ainda estou com fome
não posso esquecer

balanço os meus dedos
o circulo da sua boca
ainda tenho o toque
vou desaparecer


sinto seu olhar
balançar a minha pele
o vento leva a lua
para outro anoitecer

sinto o seu cheiro
atiçar o que eu fui
o ontem afunda no mar
eu me vejo esquecer

sinto o seu toque
proteger minha mente
não devo mais fugir
você ainda está aqui

domingo, 7 de janeiro de 2018

avisrara

Eu não consigo deixar ninguém ir embora
porque nunca alguém ficou


ouço nos seus olhos que você chora
na noite profunda dentro de você
queria encontrar a sua criança
niná-la e tirá-la do escuro

mas como posso te tocar?
o mundo nos sussurrou os fatos
amar nunca é o suficiente


te olho de canto quando deita sozinho
seu calor congela meu coração
e no frio da madrugada insone
choro sozinha por nossa solidão

nenhum abraço em cheio
apaga o vazio ácido e amargo que
corrói matérias, destrói beijos
e se aloja em tudo que foi nós

você está tão cansado e velho
daria todos os meus anos pra te salvar
correria montanhas, nadaria mares
mas não levanto para conversar


os segundos são tiros na minha pele
logo é tarde, longo é ainda mais
me pergunto quando foi que perdi a chance
de te buscar ao olhar para trás

voz rouca, olhar duro
mente quando me preocupo
tranquilo desespero
somos nós

não há amor verdadeiro
não há perdão na união
há dor, tanta tristeza
escondida na encenação

comunicação é um sonho perdido
não mais consigo te alcançar
está trancado em minha pele
intrínseco ao lamentar

vejo por enquanto
cheiro até então
não sinto nada real
seria isto a perdição?

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

viagens sem rumo

Corre no centro
-tentei
Afunda na periferia
-consegui bem demais

Olha para fora
-não me trouxe alegria
Olha para dentro
-só mais tormento
Sobe as escadas
-reergo a murada
Encontra o chão
-ao redor do coração
Entra no metrô
-me faça um favor
Mais um andar

-pare ou consiga