quarta-feira, 7 de abril de 2021

migração pendular

Pensava que o amanhã era 100% incrível

animada, não podia dormir, esperar

Mas quando acordei o Sol não tinha nascido e nenhum pássaro cantava

sentia dor nos olhos e no estômago, e depois de deixar minha mãe queria vomitar

Agora só quero ir pra casa


Pensava que o mundo era um só, e simples como aprendi

que continuamos iguais e isso era ok

Mas a verdade me queimou e continua fervendo

E agora só quero ir pra casa


Vi o sofrimento, a pequenez e minha insuficiência

e as potências pareceram nada, como eu

E agora só quero ir pra casa


Eu pensei que mudar os mundos não doesse

que o passado não ferisse mais

E que aprender a lutar sempre me deixaria forte

mas isso também me enfraqueceu

E acabei ferindo quem amo

Agora só quero ir pra casa



Sonhei e sonho e não desisti

mas tudo mudou, eu mudei

a casa mudou também


mas eu ainda a procuro

para mim, para todas

só queremos ir pra casa.




9.8.20



ELES

monstros, pessoas grandes dizem

olhos vermelhos, dentes afiados

pelos bagunçados, pelos em toda parte


monstros, nos contam

atrás da porta, embaixo da cama, dentro do armário

monstros, nos moldam

siga este caminho para não ser atacada, para não perder nada

nem seus amores


monstros, à frente, em todo lugar, perseguindo

diferentes, nojentos, blasfemos 

e perto

irremediavelmente perto

quando e conforme cresço


Me aproximo da porta

me abaixo na cama

abro o armário


monstro, contaram a cada dia

monstro eu descubro

mas não é peludo e selvagem

nem escuro e disforme

tem braços e pernas e olhos e rosto e cabelo como todos


monstro, eu vejo

o chamam

olhos azuis, pele branca, olhar presunçoso e assassino

e entre as pernas tem o mesmo que meu pai

e meu amado


monstros, pessoas grandes contam

falando de si mesmas


ou quem se tornam odiando

e matando aos poucos

quem lhes gerou e alimentou

ou só olhou



monstros nos moldam


siga esse caminho para não ser atacada

ou perder seus amores

                    ao enfrentar 

eles,            os monstros

Verbete

Não há pessoas.

Não há pessoas, não há animais, não há plantas.

Não há casas, nem montanhas, nem floresta

Não há mar nem cidade

Não há.

Não há objetos, nem cores, não há gosto nem cheiro

Não há toque.

Não há móveis nem descanso nem cama

Não há frio nem calor

Não há ninguém

Não há planeta

Não há.

Há apenas eu

flutuando inerte

no horrível vazio.


Meu peito é o lugar mais denso do mundo

Com tudo tão apertado

que não há mais

substância.


Sonhos estéreis

Existem sonhos que nunca vão se realizar.

Então precisamos parar de sonhá-los


Nunca viverão através de nós. Precisamos gastar nossa potência em sonhos que viverão através de nós

na realidade


para sonhos impossíveis, existe a arte e a terapia.  

Inespera

Ele não disse nada

Eu chequei já

Doze vezes

Ele não disse mais nada

E nem vai dizer


Assim como você-sabe-quem nunca disse

O que você esperou ouvir

E ainda espera

Desculpa

Ele nunca pediu

Desculpas



Ele já pediu tudo 

Obediência, favores

Meu tempo, meus dias

Minha saúde

Um amor cego e medroso

Meu dinheiro

E quase tudo eu dei

Até que percebi que não me restava nada

Além de dor e medo

E raiva

Muita raiva


Mas o que ele nunca pediu

O que eu mais quis que pedisse

A única coisa que deveria

Desculpa

Ele nunca pediu desculpa


E sempre que outros apertarem meu mundo de dentro pra fora

Me fazendo querer vomitar pelos olhos

Vou me lembrar dele

Sempre que estiver no limite do suportável

Vou me lembrar de como ele me fez querer morrer

E por isso lembrei hoje


Você não disse mais nada

Ele também não disse