quinta-feira, 27 de julho de 2017

Esperânsia, o poema sem fim

[para o sarau da última roda]

No amanhecer dos olhos
O mundo será bonito
No amanhecer dos olhos
Poderemos começar de novo

E as únicas gotas d'água caindo nas bochechas serão as do chuveiro, aquecendo nossa pele com a chuva morna.
E a única dor vai ser a de não ter amado antes, quando o mundo era desespero e sangue frio e quente demais.


No amanhecer dos olhos
Será possível ser feliz, e não apenas estar
No amanhecer dos olhos
O amor será tangível e inextinguível

E os únicos gritos serão de surpresa pelos arroubos de paixão, seguidos de abraços cada vez mais duradouros no coração.
E os únicos fins serão os que levam a começos melhores, infinitos ciclos de risos e só risos, internos e externos.


No amanhecer dos olhos
A justiça será realidade, não palavra
No amanhecer dos olhos
A vida será natural, e as pessoas, livres

E os únicos excluídos serão os segundos de covardia, omissão e violência, pois na nova era todos se sentem.
E a verdadeira beleza estará na inspiração, e não nos produtos, pois na nova era todos se sentem.
{DE PÉ ESTARÁ A CRIAÇÃO}


No amanhecer dos olhos
A diferença entre os seres será amada e aceita, não mais odiada e temida
No amanhecer dos olhos
A ninguém caberá praticar o que fere

E o único abandono será o da nossa kombi deixando a garagem, quando formos fazer viagens divertidas pelo mundo ou só pela cidade mesmo.
E a única irritação será a da pele com o sal do mar, e isso nos dará mais um motivo para procurar aventuras em cachoeiras.


No amanhecer dos olhos
O flutuar das borboletas será eterno no vento
No amanhecer dos olhos
Toda dor acabará em Sol*

E o único sofrimento será o de desviar meus olhos dos teus ao desenhar tua face, nas tardes mais cálidas pelo afeto.
E a única imperfeição será o fato de que num passado distante houveram perfeições forçadas - práticas aqui extintas.


No amanhecer dos olhos
A natureza será respeitada e amada
No amanhecer dos olhos
Perceberemos que somos parte dela

E os únicos espelhos serão as superfícies dos lagos e poças da água que chove nas ruas, além do modo como nossas faces se igualam na intensidade das gargalhadas.
E a única poluição será a o cheiro de batata frita quando nos deitarmos no chão para ver as estrelas, num piquenique permeado por amor pela terra e pela grama que guarda nossas costas com a melhor cama do mundo.


No amanhecer dos olhos
Não será preciso fugir da realidade
No amanhecer dos olhos
O melhor poder será a amizade, sempre verdadeira, sempre profunda

E a única pressão será a do teu corpo no meu, e do meu no teu; abraços emocionados tranformando a primeira e a segunda numa terceira pessoa, agora do plural.
E a única opressão será a dos seus dedos contra as infinitas gotas de sumo de melancia que insistem em manchar sua camiseta.


No amanhecer dos olhos
Todos vão conviver em harmonia
No amanhecer dos olhos
A verdade libertará

E a única briga será a que existe entre o glitter e a vassoura, quando vamos tornar o piso mais lisinho no PPF (período pós festa) mas é tarde demais pra desistir do brilho doméstico, espalhado como estrelas no céu.
E a única vergonha vai ser por esquecer de fechar a tampa da privada depois de ir ao banheiro.


No amanhecer dos olhos
Nunca mais seremos os mesmos
No amanhecer dos olhos
Esqueceremos os males antigos

E a única assombração será a imagem da torta na geladeira, nos chamando a recomer.
E mesmo os tropeços nos levarão adiante, nos lembrando da mágica dinâmica do recomeço...

No amanhecer dos olhos







* = referência à um verso de Bruna Santos da Cruz