quarta-feira, 22 de dezembro de 2021
outro lar
quarta-feira, 7 de abril de 2021
migração pendular
Pensava que o amanhã era 100% incrível
animada, não podia dormir, esperar
Mas quando acordei o Sol não tinha nascido e nenhum pássaro cantava
sentia dor nos olhos e no estômago, e depois de deixar minha mãe queria vomitar
Agora só quero ir pra casa
Pensava que o mundo era um só, e simples como aprendi
que continuamos iguais e isso era ok
Mas a verdade me queimou e continua fervendo
E agora só quero ir pra casa
Vi o sofrimento, a pequenez e minha insuficiência
e as potências pareceram nada, como eu
E agora só quero ir pra casa
Eu pensei que mudar os mundos não doesse
que o passado não ferisse mais
E que aprender a lutar sempre me deixaria forte
mas isso também me enfraqueceu
E acabei ferindo quem amo
Agora só quero ir pra casa
Sonhei e sonho e não desisti
mas tudo mudou, eu mudei
a casa mudou também
mas eu ainda a procuro
para mim, para todas
só queremos ir pra casa.
9.8.20
ELES
monstros, pessoas grandes dizem
olhos vermelhos, dentes afiados
pelos bagunçados, pelos em toda parte
monstros, nos contam
atrás da porta, embaixo da cama, dentro do armário
monstros, nos moldam
siga este caminho para não ser atacada, para não perder nada
nem seus amores
monstros, à frente, em todo lugar, perseguindo
diferentes, nojentos, blasfemos
e perto
irremediavelmente perto
quando e conforme cresço
Me aproximo da porta
me abaixo na cama
abro o armário
monstro, contaram a cada dia
monstro eu descubro
mas não é peludo e selvagem
nem escuro e disforme
tem braços e pernas e olhos e rosto e cabelo como todos
monstro, eu vejo
o chamam
olhos azuis, pele branca, olhar presunçoso e assassino
e entre as pernas tem o mesmo que meu pai
e meu amado
monstros, pessoas grandes contam
falando de si mesmas
ou quem se tornam odiando
e matando aos poucos
quem lhes gerou e alimentou
ou só olhou
monstros nos moldam
siga esse caminho para não ser atacada
ou perder seus amores
ao enfrentar
eles, os monstros
Verbete
Não há pessoas.
Não há pessoas, não há animais, não há plantas.
Não há casas, nem montanhas, nem floresta
Não há mar nem cidade
Não há.
Não há objetos, nem cores, não há gosto nem cheiro
Não há toque.
Não há móveis nem descanso nem cama
Não há frio nem calor
Não há ninguém
Não há planeta
Não há.
Há apenas eu
flutuando inerte
no horrível vazio.
Meu peito é o lugar mais denso do mundo
Com tudo tão apertado
que não há mais
substância.
Sonhos estéreis
Existem sonhos que nunca vão se realizar.
Então precisamos parar de sonhá-los
Nunca viverão através de nós. Precisamos gastar nossa potência em sonhos que viverão através de nós
na realidade
para sonhos impossíveis, existe a arte e a terapia.
Inespera
Ele não disse nada
Eu chequei já
Doze vezes
Ele não disse mais nada
E nem vai dizer
Assim como você-sabe-quem nunca disse
O que você esperou ouvir
E ainda espera
Desculpa
Ele nunca pediu
Desculpas
Ele já pediu tudo
Obediência, favores
Meu tempo, meus dias
Minha saúde
Um amor cego e medroso
Meu dinheiro
E quase tudo eu dei
Até que percebi que não me restava nada
Além de dor e medo
E raiva
Muita raiva
Mas o que ele nunca pediu
O que eu mais quis que pedisse
A única coisa que deveria
Desculpa
Ele nunca pediu desculpa
E sempre que outros apertarem meu mundo de dentro pra fora
Me fazendo querer vomitar pelos olhos
Vou me lembrar dele
Sempre que estiver no limite do suportável
Vou me lembrar de como ele me fez querer morrer
E por isso lembrei hoje
Você não disse mais nada
Ele também não disse