quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

célebra

existe uma caixa
no fundo escondida
um antro de compulsões
da velha fera ferida

há folhas, fotos, desenhos
há letras, rostos, rabiscos
e emoções impressas
como a culpa que a corrói
há relatos, poemas, frases
há cor, memória, faltas
e pensamentos concretos
como a doença que a destrói

foram mentiras, foram gritos
foram perdas, foram agitos
tudo passou mas tudo fica
guardado na caixa
foram anos, foram horas
foram vidas, foram memórias
tudo era mas nada é
guardado na caixa

o coração bate e sufoca
balança a caixa por fora
elementos bagunçados voam
a ordem do mundo distoa
a caixa louca como avião
perdido no céu amarelo
não há bússola nem âncora
não há coroa nem elo

então a fera fere
a caixa sangra o coração
não sente mais quem é de fora
expulsa todos da pensão

depois volta arrependida
clamando por atenção
então chora atendida
vendo o ciclo sem razão

não entende o começo
não prevê o fim
nasceu no meio
e fica assim

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