quarta-feira, 4 de novembro de 2015
Sempre mais cedo
"O tempo existe?" - Bruna Santos da Cruz
OBS.: ponho vírgulas onde eu quiser. Essas palavras são minhas, e decidi que elas serão livres.
Nós nascemos mais cedo. Saímos da maternidade mais cedo. Nossos pais já nos conheciam há muito.
Aprendemos a andar, comer e falar mais cedo. Logo já estamos correndo por aí de pés descalços - ou não, às vezes nossos pais tentam nos proteger mais cedo - pelos cômodos da casa comprada mais cedo. Pulamos nos sofás escolhidos mais cedo antes de rasgarem-se, andamos andamos e andamos e passamos pela cozinha e sentimos o cheiro da comida que já comemos mais cedo e gritamos palavras novas e lindamente bobas que reverberam pelo ambiente iluminado mais cedo também.
Ainda não precisamos de pausas nem de ponto final nesta frase
Rimos mais cedo de coisas aprendidas com a TV, que passamos a assistir mais cedo, cada vez mais cedo, mas os adultos nunca querem nos dizer que nossas vidas vão ficando tão monótonas que precisamos esquecer de tudo para lembrar que existimos. E sentir.
Somos levados para a escola mais cedo, mas nem sempre conseguimos fazer amigos quando queremos, que é o mais rápido possível. Aprendemos lições de vida e ganhamos muitas lições de casa sobre dados e mais fados e coisas que ainda não entendemos mas aprendemos mesmo assim. Porque disseram que tinha que ser assim. E não sabemos se isso está certo ou errado, mas precisamos seguir em frente, seja ela qual for.
Nós beijamos mais cedo. E coisas estranhas são cada vez mais normais, pois o estranho passa a ser você quando não faz o que as pessoas com amigos fazem. Nos apaixonamos mais cedo também, seja lá o que isso signifique. E passamos a esperar, talvez por um dia ou pela vida toda, aquela pessoa. Sim, você sabe de quem estou falando. Você a descobriu em um sorriso cedo demais ou na hora certa? Você sequer a descobriu?
E então começamos a pegar pesado na decoreba cedo demais. Porque nossas prioridades são implantadas, é assim que as coisas são. Cedo demais madrugamos, despertando com o sol mas perdendo o amanhecer. E perdemos o pôr do sol também, porque enquanto ele acontece alguém está nos dizendo o que escrever num papel que vale números escritos à caneta vermelha. Gostamos de números altos e, mais uma vez, não sabemos direito se isso é bom ou ruim. Mas é assim que as coisas são.
E cedo demais descobrimos que só podemos chegar em casa depois que as estrelas já se foram, cansadas de nos esperar. Porque na verdade nunca as vemos, e só chegamos em casa quando pegamos no sono.
E, quando alguém nos acorda, percebemos cedo demais que não temos o controle das nossas ações, que somos obrigados a ter obrigações.
Porém, o que mais dói de tudo isso é o momento em que percebemos, tarde demais, que descobrimos muito cedo como matar as pessoas com fonemas de ferro e vidro.
E muitas vezes não há como cicatrizar queimaduras de ódio e egoísmo que não foram feitas cedo ou tarde demais. Elas simplesmente foram feitas. E não deveriam ter sido.
Mas é quando finalmente paramos e entendemos o tempo que conseguimos refletir sobre tudo isso. E eu penso que, talvez, só façamos tudo cedo demais por termos esperança de sobrar tempo no final.
L. S. Cruz
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